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A ARTE SAGRADA DE SUSANA URIBARRI

 

ARGENTINA BUDISTA TIBETANA, 44 ANOS DE IDADE, DOS QUAIS 22 VIVIDOS NO BRASIL, A PINTORA SUSANA URIBARRI SURPREENDE PELA BELEZA E UTILIDADE DE SUA ARTE. QUEREMOS TOCAR E SENTIR COM NOSSA PELE, VESTIR NO NOSSO CORPO, PENDURAR NA PAREDE, TUDO QUE ELA CRIA, GERALMENTE EM SEDA, ELABORADISSIMA ARTE. ALGUMAS EM MÃO LIVRE, OUTRAS EM ELABORADA TÉCNICA BATIK.
 
MEDITAÇÃO _ Susana,o que você está expressando hoje, com sua arte, com seu trabalho, com sua prática espiritual?
SUSANA URIBARRI acho que as pessoas me procuram com o objetivo subliminar de se encontrarem consigo mesmas. Ao longo de muito anos de trabalho, percebi que o fato de uma pessoa querer pintar nada mais era do que um desejo de se encontrar.
 
Isso tem tudo a ver com meditação pura A pessoa chega aqui, senta e começa pintar. O que acontece?
 
As pessoas perseguem muito essa sensação de ser, mas elas não sabem que estão querendo isso. O que traz muita tristeza e sentimento de frustração é o fato de a pessoa não se dar esse tempo para se encontrar, procurar-se incansavelmente de uma forma externa e nunca mais se achar.
Como praticante, percebo que a pintura é uma forma de meditar, é uma forma de estar próximo de mim mesma.
 
Acontece que estou comigo mesmo, e isso me dá uma sensação de tranqüilidade e de bem estar. Penso que, para quem não pinta ou nunca pintou, há uma distância muito grande de sentido de Ser. A pessoa não tem muita noção de quem ela é. A pintura não traz isso de modo total, mas como um reflexo, uma lembrança, de quem a pessoa é, de quem eu sou.

 

MEDITAÇÃO_ Você é uma pintora, uma desenhista, uma artista, mas você também ensina. Conte um pouco da sua história.
SUSANAAprendi sozinha, sou autodidata na arte têxtil. O caminho que fiz depois, para “aprender” a desenhar, não acrescentou muito ao que já sabia.
 
Então poso dizer que o que tenho seguido e levado adiante é a minha própria experiência, ou seja, aquela em que você resolve fazer um trabalho, decide pó ele, coloca-o em prática e leva-o até o fim, concretizando-o.
 
O que isso quer dizer? Há uma idéia, há uma sensação e há um impulso para se criar
 
Esse impulso para se criar, a meu ver, tem que ser colocado imediatamente em prática, ele não pode esperar, não é algo para esperar
 
Existe a maneira formal e objetiva de pintar, em que a pessoa busca conhecer e atingir uma técnica, mas o meu trabalho leva a perceber outra coisa: onde a pessoa está mais fácil, mais aberta para poder se expressar.
Faço-a trilhar esse caminho, levando-a nessa experiência de abrir espaço para trabalhar, para pintar e concretizar alguma coisa. O que acontece na verdade não é dito, mas a pessoa leva essa verdade para casa.
 
Numa aula formal, muita gente sai crente de que aprendeu a pintar; então nada fez do que libertar o que ela já sabia. Esse Trabalho tem um resultado: a pessoa sai muito estimulada. Nessa vivência de experimentar e concretizar há muitas coisas.
 
A concretização faz que a pessoa tenha um processo mais longo, ou seja, um ação residual das aulas é que ale fica por longos períodos estimulada a produzir e a dar prosseguimento a esse encontro com ela mesma.
 
MEDITAÇÃO_ È como se você fosse mesmo uma terapeuta da criatividade. Mas me fale de sua história pessoal, de como é a história da Susana Uribarri e de como ela conheceu a Raul, seu marida, também. Tudo, tudo. (riso).
SUSANA Desde pequena desenhava muito e todo mundo gostava do que eu desenhava. Meus pais sempre me davam de presente de aniversário aquarelas, papel, telinha e lápis colorido. Minha vida sempre foi rodeada dessas coisas. Minha mãe é tecelã. Ela punha então muito da criação dela em roupinhas para a gente, fazia tricôs maravilhosos.

Foi com ela que aprendi a trabalhar muito com tecidos, a tecer e tal. Não houve escola para isso. Na verdade não fiz artes plásticas, não estudei formalmente para uma carreira como no caso do desenho. Isso era natural. Como n ão tinha também muito acesso a outros

 
materiais e nós morávamos numa estação de trem, já que meu pai era ferroviário, estávamos em um lugar muito isolado. Era uma estação de trem em meio a um campo que dava para quatro bosques. Então a minha vida era isso; eu tenho dois irmãos. Então nossa brincadeira era no sentido de buscar fazer alguma coisa.
 
Eu vivia na Argentina. Quando conheci o Raul, na verdade a sua família e a minha maravam na mesma cidade, só que a gente não se conhecia, porque na época ele estudava publicidade em Buenos Aires.
 
Mas eu o conheci quando tinha 17 anos, e estava terminando o colegial. Aí a gente começou a se encontrar, a sair junto, tínhamos muitas conversas, muita troca de idéias a aí começamos a namorar
 
Com 20 anos nós casamos e fomos morar na Patagônia, buscando uma vida mais tranqüila por lá, porque Buenos Aires estava em pé de guerra com revoluções, a ditadura, enfim, um clima de muito conflito.
 
Como tínhamos pontos de vistas mais humanistas, sofríamos muito com isso, porque nada anda e frutifica em um clima de muita repressão. Por outro lado, você é obrigado a voltar-se para dentro também.
 
Então há esses dois lados: extremamente as coisa não andam, mas internamente a pessoa é forçada a encontrar caminhos. No final de 1980 a gente resolveu que iria sair da Argentina porque não estava dando mais. Aí viemos visitar alguns amigos do Raul no Brasil.
 
Esses amigos nos receberam muito bem, e ficamos aqui por um tempo. Nossa idéia era a de continuar, iríamos até o México. Só que na época começou a Guerra das Malvinas, na Argentina. Então ficamos sem saber se continuávamos a viagem ou se voltávamos .
 
Por sua vez, os nosso amigos nos encorajaram a ficar. Acabamos ficando mais um tempo, logo em seguida o Raul começou a ter propostas de trabalho aqui, e eu comecei a estudar português no Senac, porque não sabia falar a língua e tudo mais.
 
Comecei também a mostrar o meu trabalho, apareceram propostas e tal e acabamos ficando aqui. Foi assim que a gente ficou.
MEDITAÇÃO_ E como é que começaram a aparecer os convites para você expor?
SUSANA – Eu estava fazendo esse curso no senac, mas eu tinha trazido o meu trabalho da Argemntina,trouxe minha mala  um rolo de batik.
 
Quando mostrei aqui, as pessoas se encantaram, elas adoraram e houve muito retorno. Quando um dos professores viu o meu trabalho, imediatamente me colocou em contato com uma galeria para novos artistas, que tinha lá no Senac mesmo. Arrumou data para mim, marcou, e eu tive de me virar e começar a produzir para a exposição.
 
Isso tudo sem eu ter tido muito tempo para escolher se queria isso ou não, se isso era uma carreira ou não era. Não questionei e fui fazendo. Aí deu muito certo. Fiz uma primeira exposição e houve um retorno muito forte, com as pessoas querendo saber que técnica era essa, como eu fazia e se poderia ensinar. Então logo em seguida veio um convite para ensinar. Na época eu tinha apenas 23 anos.
 
O Senac abriu então uma nova área. Na época havia ali cursos de descoloração, publicidade, fotografia.
 
 
 
“COMO TINHAMOS PONTOS DE VISTA MAIS HUMANISTAS, SOFRÍAMOS MUITO COM ISSO, PORQUE NADA CRESCE, NADA ANDA E FRUTIFICA EM UM CLIMA  DE MUITA REPRESSÃO”
 
Não havia o de estamparia manual, não existia nada disso. Na verdade tinha lá um curso de silk- scream. Foi então que se abriu essa área de estamparia manual, mas na verdade, fui eu que montei tudo aquilo; os programas, como as pessoas têm de começar e por onde. U tive de me virar, de montar um programa de ensino, assumir essa área e assumir o curso, isso tudo mal falando português.
 
Fiquei extremamente enrolada, porque era muito nova e inexperiente, mas topei. Aí montamos um curso, de um ano de duração, que ensinava todo o bê-á-bá, desde tingir, pintar, desenhar, fazer tié-dye, fazer batik, etc.
 
MEDITAÇÃO – Em que ano foi isso?
SUSANA – Isso foi de 84 a 89 mais ou menos.
 
MEDITAÇÃO – Então você criou essa área no Senac.
"Que interessante."
SUSANA – Isso era muito novo, né. De 87 em diante comecei a me envolver com a arte para vestir.
 
Aquilo foi para mim uma abertura fantástica, porque trabalhava muito mais na tela, muito mais com decoração e até com quadrados; era em batik  em tecidos, etc. mas era quadro, era objetivo de parede.
 
Mais ou menos em 87 eu conheci uma artista têxtil baiana muito famosa, que influenciou muito o trabalho dos artistas que hoje em dia estão no mercado de moda. De estilistas também. Ela tinha voltado dos Estados Unidos com essa proposta de art-wear. Até essa época, ninguém usava roupa pintada; a roupa pintada ou era uma coisa manchada ou hippie. Não era formalmente assimilado pela moda. Aí apresentamos trabalhos sobre o uso do corpo em relação á arte.
 
Ela me convidou a fazer esse tipo de trabalho e fiz uma exposição muito boa com ela, numa galeria que ela tinha .
 
MEDITAÇÃO- Você estava falando desse seu sentindo de quase terapia, de como é que as pessoas se aproximavam. Como é que a pessoa precisa e sente a arte?

SUSANA - É tudo subliminar. Na verdade tentei fazer aqui um curso de arte terapia, há uns três anos.Não foi bem recebido no sentido de deixar claro que era arte terapia. A pessoa falava:”Não, eu quero pintar, quero ser artista. Não quero uma terapia”. Não se encarava bem isso. Mas eu percebi que a cosa era subliminar, que a pessoa vinha para me dizer que queria pintar , que tinha habilidade, que tina criatividade, que tinha talento e que queria fazer daquilo uma profissão.

 
Só que no meio do caminho a pessoa diz que ela quer imediatamente uma válvula de escape, um encontro com sigo mesma. Tanto é que no logotipo do ateliê é assim: Susana uribarri, e em baixo a frase pequenininha, que passa batido, que ninguém vê, dizendo”filosofia e arte-o encontro com você”.
Na verdade, o espaço todo propicia a que a pessoa venha, pinte e se encontre.Com a gente percebe isso? É natural mesmo, porque ela começa a pintar e a lembrar da sua própria história, começa a contar sua vida e se modifica de tal forma que, se não esta sendo observada, se seta sozinha em casa, ela não tem um “espelho” (para se perceber) e vai achar que seta se sentido bem. Mas a gente esta ali para espelhar, esse é o nosso trabalho.
 
Agente percebe as dificuldades. Tem técnicas que mexe muito, por exemplo, como o emocional da pessoa; então ela se sente um pouco insegura e fragilizada. Tem técnicas que já são mais sólidas, trabalhão mais o elemento terra; então a gente percebe que a pessoa está muito volátil, muito aérea, e uma técnica dessas vai deixa-la um pouco mais estável.
MEDITAÇÃO- Como é que o budismo entrou na sua vida, ou você entrou no budismo?
SUSANA- Eu era budista e não sabia, esse é que foi o detalhe. Acredito que a maior parte das pessoas que contata o budismo fala: “Ué, acho que sou budista então”!.
 
MEDITAÇÃO- Desde que nasceu.
SUSANA- Desde que nasci, porque o budismo nada mais é que um caminho humanista, um caminho que mostra a verdadeira natureza do ser. Então você começa a perceber que tudo aquilo é  muito natural, que não vai ser algo diferente do que você é. Como eu pintava muito e estava sempre comigo mesma, para min foi muito simples esse encontro no budismo. De alguma forma, eu “tropecei” com o budismo. Fui fazer um curso de tai-chi chuan  numa academia, e o professor me sugeriu uma prática de meditação.
Deu-me um livrinho, uma minúscula apostila que tinha um mantra. Fui praticando o mantra  enquanto estava pintando, não tinha nada de muito formal. Uma das alunas mais antigas, em outra ocasião, nos disse:’Olha,sexta feira agente estará praticando o Buda da compaixão. Vocês querem fazer ?”. Olha, ,Mirna, na hora em que pratiquei pela primeira vez, voltei de cabeça para meus antigos retiros da minha infância, lá nos bosques da Argentina. Não foi uma lembrança, eu estava exatamente lá.

 

MEDITAÇÃO- E integrou tudo.
SUSANA- Integrou, mas integrou de uma forma inquestionável, num piscar de olhos. Eu fiquei tão comovida com a experiência que falei: “isso está fazendo muito sentido”.  Aquela aspiração que tive desde criança tipo “há, que bom seria saber mais sobre isso!” Assim foi.
 
Aí, começamos praticando o Buda da compaixão, depois começamos a fazer outros retiros, depois veio um lama que nos deu a iniciação. Fomos de cabeça, ganhamos o nossonome budista numa cerimônia maravilhosa.
E assim fomos praticando, estou até agora praticando.

“FILOSOFIA E ARTE - O ENCONTRO COM VOCÊ“, EIS O LOGOTIPO DE SUSANA. NA VERDADE O ESPAÇO TODO PROPICIA A QUE A PESSOA VENHA PINTE E SE ENCONTRE.

MEDITAÇÃO - A thanka tibetana, por exemplo, tem toda uma técnica rigorosíssima.

Como é que você começou a pintar a mão livre? Porque você tem uma coisa de mão livre que é também inacreditável. Fale-me disso, porque quando vi algumas coisas suas fiquei encantada. É como se isso já estivesse dentro de você.
SUSANA - você vê que coisa engraçada, porque eu sempre tive essa sensação que não era algo de fora de mim, que não estava vindo de outra fonte. É claro que ninguém aprende a pintar thanka espontaneamente (risos).
Não vou nem falar um absurdo desses. Há um ano e meio atrás, teve um curso de arte sacra tibetana aqui na academia. Muriela Colagiacomo uma artista italiana muito boa, estava dando um curso e fui correndo participar. Eu e o Raul fomos lá fazer o curso de thanka.O curso consistia em aprender a fazer a tela de thanka, preparar todos os pigmentos, fazer aquela pedra socada que vira pó mesmo, de lápis lázuli, aquelas pedras que tem pigmentos que dão cor: então fazer a tinta com aquela pedra socada, misturar com cola de coelho, etc. Ela deu todinho o processo como ele é.
A thanka tem uma técnica com começo, meio, e fim, e na figura da deidade não dá para o artista mexer. O que pode mexer é que gostei, é no cenário, na ambientação da deidade. Mas a deidade em si tem as proporções dela. No curso, a Muriela mostrou como eram os desenhos e as proporções. Nós aprendemos a fazer também a proporção da deidade. Escolhemos uma deidade e passamos a fazer todo o desenvolvimento. A deidade que escolhi, no momento do curso, foi a tara verde, de quem sou praticante também. Na parte das oferendas (porque tem oferendas para deidade), o artista poder colocar um pouquinho da sua subjetividade.Foi ai que resolvi “viajar” um pouco, nada mais justo... Coloquei, saindo de um lago um lótus, mas o lago tem peixes brasileiros, tem o boto cor-de-rosa, vitórias-régias; nas oferendas, na parte da comida, coloquei abacaxis, bananas, há mamões abertos, frutas brasileiras. Foi tão emocionante! Aí coloquei alguns animaizinhos nos cantos, uns sapinhos e uns insetos, tudo como é nas florestas brasileiras, com os matinhos daqui do Brasil. Terminei de pintar numa questão de horas, enrolei a thanka e mandei para a Índia, para o nosso mestre Bokar Rinpoche, com uma carta para ele. Foi muito emocionante esse “parto” da minha primeira thanka E foi uma benção mesmo, porque ele adorou a thanka.
 
MEDITAÇÃO_ Me fale um pouco do Jardim do Dharma.
SUSANA_ O Jardim do Dharma é a escola do Kagyu Dak-Shang Choling aqui em Cotia, São Paulo. Tem um centro de retiro e de prática, então tem uma escola e uma stupa.

MEDITAÇÃO_ Qual é o seu caminho agora? O que você quer fazer? Como está agora a sua visão do seu trabalho?  E como é que você está vendo o Brasil e essa coisa toda que vai começar agora?

SUSANA_ Eu vejo que o Brasil está pronto para o Budismo. Tanto é que ele está se abrindo muito. A meu ver, o brasileiro é também um budista que não sabe disso. A meu ver é bem assim, A carta que mandei para Bokar é de alguma forma, mostrando, fazendo essa oferenda para Tara.
 
MEDITAÇÃO  A natureza búdica, né?
SUSANA _ A minha intenção, nessa oferenda para Tara Verde, é como se estivesse oferecendo o Brasil para ela. Ela é a Deidade rápida e valente, a que segura os demônios, a que a meu ver é uma Deidade que tem que estar no Brasil.
Isso porque a natureza do Brasil, do brasileiro, é muito bondosa, é muito generosa. Não há estranhamento nenhum com o conceito budista, de como as pessoas levam a vida de forma simples e humilde. O padrão do povo brasileiro como grupamento humano, acho perfeitamente budista, mesmo que ele não tenha formalmente essa formação o que pouco importa.
 
 
 
 
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